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Os desafios da sucessão nas empresas familiares

O grande desafio para a continuidade do sucesso e estabilidade nas empresas familiares ainda continua sendo a transição da primeira para a segunda geração, sendo principalmente marcada pela figura do fundador. Começa pela própria figura do patriarca/fundador que de uma forma geral, na maioria das vezes foi e é um grande empreendedor, todavia, tem dificuldade de entender em que momento a empresa se tornou maior do que ele próprio, ou seja, o momento em que a criatura se tornou maior que seu criador.

O ponto principal é o fundador querer lidar com esse assunto. Existe um grande tabu no Brasil, sendo que patriarcas e herdeiros dificilmente tratam de forma aberta sobre o tema.  O segundo aspecto consiste em entender que os filhos/herdeiro não irão herdar meramente um patrimônio ou uma empresa, vão herdar algo muito mais complexo, uma sociedade em que os sócios não tiveram a liberdade de seu escolherem. Nesse ponto cabe frisar uma questão interessante e quase nunca é levada em consideração, mas que sem dúvida pode ser a manjedoura dos conflitos “Os herdeiros não se escolheram como irmãos e menos ainda como sócios da empresa recebida por herança”. Boa parte dos fracassos que ocorrem nas empresas familiares não decorre da questão do empreendimento dos negócios, mas de eventuais e comuns disputas familiares. Dados confirmam que 70% das empresas familiares que fracassaram possuem como causa conflitos familiares mal resolvidos.

Para o sucesso na transição é necessário ao patriarca entender que em algum momento aquilo que ele criou se tornou algo realmente importante para a família, e se ele tem o desejo que se torne perpetuo, terá que iniciar as tratativas com o grupo familiar, ou seja, deverá conversar com seus herdeiros.

Para uma transição adequada e sem traumas recomendado que o fundador não indique de forma direta, explicita e imposta seu sucessor, pois quando de seu falecimento, não estando mais entre os filhos, é provável que os irmãos questionem tal administrador, pois poderão alegar que o mesmo está na posição, pois foi escolhido pelo papai. O ideal é o patriarca permitir entre os herdeiros se escolherem entre si, discutirem entre eles para verificar se emergem uma liderança, pois essa liderança deve ser conquistada, porque os demais serão sócios entre si. Ou seja, a forma adequada seria os próprios herdeiros escolherem o sucessor, para que no momento do falecimento do patriarca não haja questionamentos quanto a indicação, pois foram os próprios que o inseriu em tal posição.

Uma passagem muito interessante ocorreu com o fundador da Bombril. Na ocasião o fundador escrevia cartas para os filhos que em resumo recomendava-se o seguinte: “Filhos procurem se entender, não criem conflitos, tenham boa relação e harmonia, pois vocês não serão donos da empresa, vocês serão sócios, e quem tem sócio tem patrão e deve dar satisfação”.

Esse fato é  uma situação que os herdeiros não imaginam e querem seguir o modelo da primeira geração. Na primeira geração existia a figura do dono, mas da segunda em diante não existe mais donos. Na segunda geração existem sócios que devem prestar contas entre si.

O tema mexe com emoções, sentimentos e ressentimentos, muitas vezes tem na família uma série de conflitos e divergências entre pai e filho, irmãos, e essas questão vão certamente afetar esse processo. Outro ponto a destacar na relação e conflitos familiares e o fundador é a questão do poder. O empresário como figura publica pode ser muito respeitado,  mas como pai foi um fracasso, foi um pai ausente e essa questão deve ser discutida na família e as vezes é difícil lidar porque pode se confrontar com questão que não gostaria de ouvir.

Mas se o fundador pretende assegurar a continuidade de sua obra, deve permitir que os herdeiros tratem do assunto. Essa questão não é um assunto que diz respeito somente a sua pessoa. O patriarca pode ter criado, mas a continuidade depende de seus herdeiros. Isso não é um assunto fácil para qualquer patriarca.

O fundador é uma pessoa que conquistou poder, e o poder é uma coisa prazerosa. Alguns dizem que o poder é um orgasmo. Na medida que o patriarca deixa o poder, não é raro que se aparente uma solidão, em casos mais grave entrando até em depressão. O que tem muitas vezes acontecido é que o fundador só permite a seus herdeiros a continuidade quando encontra outra fonte de poder (Atividade política, uma nova empresa, ONG, trabalho social). Fundadores não se aposentam, “não soltam a rapadura” porque o poder é uma coisa que ele precisa e faz parte da vida.

Outro ponto a destacar consiste na diferenciação da empresa e família. A questão da empresa deve ser tratada na empresa e não no âmbito familiar, todavia, é muito difícil, porque na realidade as coisas estão misturadas.

O fundador é ao mesmo tempo figura patriarcal, e muitas vezes tem o discurso de “fiz isso para vocês”, todavia, mas não perguntou se os filhos queriam isso, então muitas vezes a relação familiar fica comprometida.

A ideia de separar os assuntos é muito idealizada mas é utópica, principalmente se você leva membros da família pra trabalhar na empresa, pois quando isso acontece você não elimina dentro da empresa a relação de parentesco. A relação continua e não se deixa de ser filho ou irmão, e mesmo que diga o patriarca “esse aqui e meu filho trate como um mero funcionário normal” ele  nunca será considerado normal pelos demos porque ele é filho do dono.

A instituição familiar é muito idealizada, sendo muito comum que patriarca deseja que os filhos se de bem, se amar, porque são filhos do mesmo pai mesma mãe. Mas a família tem uma questão sociológica que as vezes não se avalia, mas é uma questão importante.

Na estrutura familiar, principalmente entre herdeiros não há escolha. Casal se escolhem mas os filhos não se escolheram. O patriarca não escolhe os filhos, eles não escolheram como irmãos, e muitos menos os agregados. Querer que todos se entendam vai depender muito de todos.

Como disse é comum o patriarca mencionar “fiz isso para vocês”, entretanto o herdeiro pode simplesmente dizer: “agradeço, mas eu não quero ser sócio da minha irmã. Eu quero fazer outra coisa, isso tudo que você fez não me interessa”. Essas questões são delicadas e muitas vezes mexem com questões de caráter afetivo emocional e geram ressentimos que podem dificultar uma transição harmônica.

O que realmente destrói a empresa são os conflitos familiares. Na gestão se não ter na família um profissional capacitado, pode se contratar executivo não familiar. Inclusive contratação de executivos não familiares pode ser até vantagem, pois pode despedir sem ter que almoçar com ele no domingo. Despedir um cunhado, um irmão, um sobrinho é  mais complicado porque terá ainda o vínculo familiar e o convívio.

Questão relevante é que os herdeiros devem entender que estão herdando participações societárias em uma sociedade. Na primeira geração, fundador, era o dono. Todavia, na segunda geração se tem 3 filhos a empresa será dividida, não teremos mais a figura de dono.

Os herdeiros estão herdando um patrimônio vinculado societariamente. Devem procurar entendimento entre eles no sentido de que haja continuidade para agregar valor ao patrimônio, porque, caso não agregar a empresa pode começar a ter problema. É o inicio para a aplicação do ditado “Pai rico, filho nobre, neto pobre”. A cada geração aumenta o número de componentes e a empresa não cresce de forma proporcional. Ocorre também muitas vezes quando se chega a terceira geração um fato triste. Os netos nem sabem direito como começou a empresa. Isso é um fato grave, pois herança é um direito, mas herança sem um legado, sem conhecer como foi construída em geral se perde, se dilapida.

Concluindo, uma transição não é uma formula fácil e leva-se em conta diversas variantes. Entretanto, desde cedo cabe ao patriarca e a família iniciar conversas sobre o assunto, buscando alternativas e soluções, para que no momento do falecimento do fundador as estruturas estejam sólidas e consolidadas, diminuindo os traumas e riscos de perecimento da empresa familiar.

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